Radical Democracia

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As vozes (dissonantes) da Europa

alex tsipiras

Alexis Tsipras

Mesmo antes do resultado da reunião dos líderes da Zona do Euro, os prognósticos não eram positivos para a já tão maltratada Grécia.

por Marcelo Justo

Nada como as vozes dos líderes da cúpula em Bruxelas para mostrar a profunda divisão do Eurogrupo sobre a proposta apresentada pelo governo de Alexis Tsipras, que buscava um terceiro resgate para a economia grega. A ideia lançada pela Alemanha no sábado, sobre uma possível saída da Grécia da Zona Euro durante cinco anos, contribuiu para obscurecer ainda mais o cenário. O domingo esteve cheio de rumores e o resultado, negativo para a Grécia, foi anunciado na segunda-feira de manhã. O espetáculo que a suposta “União” Europeia está dando é pouco edificante.

O sinuoso socialista Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu – que, em outro momento, criticou a austeridade como remédio, e logo se converteu em seu entusiasta – era um dos que buscavam o acordo. “Alguns pensam que a Grécia deve abandonar a Zona Euro e que isso não representa um risco. Um grupo mais amplo defende completamente o contrário. Se a União Europeia vai ser uma força com credibilidade, deve resolver seus problemas. Necessitamos de compromisso”, disse ele, numa coletiva de imprensa antes da cúpula.

O ministro da Fazenda da Eslováquia, Peter Kazimir, um dos mais fortes oponentes de um novo resgate grego, não mostrou nenhum desejo de compromisso. Depois de fazer piadas com os jornalistas, dizendo que não podia falar porque era católico e os católicos não trabalham aos domingos, Kazimir retomou a seriedade, e disse de forma enfática e contundente:  “não é possível chegar a nenhum acordo hoje”.

Um dos seus mais firmes aliados anti-resgate é ministro da Fazenda de Finlândia, Alex Stub, que listou uma série de duríssimas pré-condições à proposta do governo grego, que já contempla um aumento de 4,5 bilhões de euros em impostos e redução do gasto fiscal com relação ao plano que a mesma Europa havia apresentado no final de junho. “Nesta quarta-feira, 15 de julho, o Parlamento Grego deverá aprovar novas leis, com profundas reformas do mercado de trabalho, dos impostos e das aposentadorias e pensões. O Eurogrupo também quer um compromisso maior com as privatizações. Se vamos  abrir uma negociação sobre um resgate, é preciso que estas condições sejam aprovadas pelo governo grego e pelo legislativo”, exigiu Stub.

A Finlândia é um dos oito países da Zona Euro que terá que aprovar o acordo com uma votação parlamentar – os outros sete são Alemanha, França, Áustria, Estônia, Letônia, Eslováquia e a própria Grécia. O problema é que Timo Soini, líder do grupo nacionalista Finlandeses Verdadeiros, jurou que derrubará o governo de coalizão se o novo resgate à Grécia for aprovado.

A verdade é que tanto a Finlândia quanto a Eslováquia são acompanhantes do grupo de falcões europeus, que tem um líder indiscutível: a Alemanha. O acordo não requer unanimidade: com uma maioria de 85% já pode ser aprovado. Segundo comentou à Carta Maior o economista greco-cipriota Panicos Demetriades, presidente do Banco Central do Chipre durante o resgate do país em 2012 e um veterano nessas negociações, “se os alemães estão a favor, ninguém irá se opor”.

A França tem colaborado com a posição grega, ao ponto de ajudar na redação da última proposta do governo de Alexis Tsipras. O presidente François Hollande rechaçou a alternativa que a Alemanha insinuou à imprensa, sobre uma temporária suspensão da Grécia da Zona Euro. “O que está em jogo é a Europa. Isto não é só sobre o futuro da Grécia. É o conceito que nós temos de Europa. A Grécia pode estar dentro ou fora da Zona Euro. Mas se está fora, é a Europa inteira que vai sofrer”, comentou o mandatário francês.

Não é a mesma posição dos alemães. O governo germânico é guiado por uma tendência liderada pelo ministro da Fazenda Wolfgang Schäuble, que quer a saída da Grécia, com a premissa de que essa será a solução aos problemas e incertezas do Euro. A iniciativa que o chefe das finanças alemã defendeu no sábado é a de uma saída da Grécia do euro, durante cinco anos, e para poder solicitar sua reincorporação, o país deveria colocar 50 bilhões de euros num fundo independente, para pagar suas dívidas.

Essa espécie de túnel do tempo, que retrocederia o relógio a antes da entrada da Grécia no Euro, provocou uma forte reação. Na Alemanha, o Partido Verde a denunciou como inconstitucional. O vice-chanceler do governo de coalizão, o social-democrata Sigmar Gabriel, alegou que os mesmos gregos teriam o poder de decisão sobre essa iniciativa. “Numa situação tão difícil, é óbvio que todas as possibilidades devem estar sobre a mesa, mas só se levará adiante se o governo grego decidir que é a melhor alternativa”, disse.

Em Bruxelas, uma intransigente Angela Merkel fez a sua parte, dizendo que não havia porque buscar um acordo “custe o que custar”, e que era “necessário pesar os custos e benefícios”.

A pressão doméstica sobre a lenta, cautelosa e pouco imaginativa chanceler alemã é clara. O CEO da Bolsa de Berlim, Artur Fischer, afirmou que qualquer decisão que tome terá custo político. “Se ela jogar por um terceiro resgate, vai se isolar internamente, com o risco de se encontrar no mesmo ponto de seis meses ou um ano atrás. Se impulsa a saída da Grécia, e se com isso a Grécia afunda, as imagens desse colapso a condenarão a nível internacional”, disse ele à imprensa germânica.

Uma petição online encabeçada pelo economista francês Thomas Piketty, para que o governo alemão garanta à Grécia um alívio de sua dívida, como o que recebeu a Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, teve forte impacto. A manchete do New York Times “Alemanha se esquece da lição histórica da Guerra no debate sobre o alívio da dívida” também gerou uma intensa polêmica, num país que se sente isolado e “incompreendido”. Entre os germanos, crescem as vozes críticas tanto à direita quanto à esquerda. O ex-chanceler verde Joschka Fischer, através do prestigioso semanário Die Zeit, responsabilizou Merkel pela atual situação, e por “atuar como uma contadora, e não como uma política”.

Entre os divididos social-democratas europeus, os que se opõem à posição alemã também são cada dia mais numerosos. O presidente do maior bloco político do Parlamento Europeu, o social-democrata italiano Gianni Pittella, criticou duramente a posição de Schäuble. “Seus truques e jogos políticos estão gerando um perigo cada vez maior de que isto termine numa saída da Grécia da Zona Euro. Para todos os europeus, Schäuble e seus aliados serão os responsáveis históricos de um eventual fracasso”, reclamou Pittella.

Igualmente contundente foi o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. “A Itália não quer que a Grécia abandone o euro, e tampouco quer humilhar um sócio europeu depois que este cedeu em praticamente tudo. À Alemanha, só posso dizer uma coisa: basta! É hora de atuar com bom senso”, indicou Renzi ao periódico Il Messagero.

A verdade é que, ao contrário do que pensava o filósofo René Descartes, e tal como vemos hoje na Zona Euro, o bom senso continua sendo o menos comum dos sentidos. O único consolo a esse confronto de vozes discordantes foi a declaração do primeiro-ministro da minúscula Malta, Joseph Muscat. “O fato de que esta cúpula esteja acontecendo é uma prova de que estamos dispostos a fazer tudo o que for possível. Não estamos discutindo a saída da Grécia: estamos discutindo todas as opções. Mas está claro que não há unanimidade sobre o que fazer”, disse ele.

Entretanto, a Rússia contribuiu com seu grãozinho de areia ao alvoroço, com uma iniciativa que preocupa os Estados Unidos – onde o temor é que uma saída da Grécia desestabilize uma zona geopoliticamente crucial, e empurre o governo de Tsipras aos braços de Vladimir Putin. O ministro de energia russo Alexander Novak indicou que seu país vai ajudar na recuperação grega. “Queremos apoiar a revitalização da economia grega, ampliando a cooperação no setor energético. Estamos vendo a possibilidade de começar, em breve, a entrega direta de recursos energéticos à Grécia”.

Tradução: Victor Farinelli

Fonte: Carta Maior

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