Radical Democracia

Todo poder emana do povo

O que WikiLeaks ensina sobre como os EUA operam

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por Julian Assange | Tradução do Coletivo Vila Vudu

Introdução ao livro The Wikileaks Files: The World According to the US Empire (Verso, Londres, 2015)

“A marca registrada de todos os impérios é o esforço estruturado para administrar, pela comunicação, um amplo sistema cultural e econômico. E são os registros desse tipo de comunicação, que não são feitos para serem dissecados – e, portanto, são especialmente vulneráveis à dissecção – que constituem a base para que se compreenda a natureza do único “império” que ainda resta no mundo.”

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No momento em que escrevo, WikiLeaks publicou 2.325.961 telegramas diplomáticos e outros registros do Departamento de Estado dos EUA, cerca de dois bilhões de palavras. Esse corpus que parece insuperável de literatura interna de um Estado, que, se impresso, resultaria em cerca de 30 mil volumes, é coisa absolutamente nova.

Como o Departamento de Estado, esse corpus também não pode ser conhecido se não for aberto e examinado por partes. Mas recortar ao acaso registros diplomáticos isolados que se entrecruzam com entidades e disputas conhecidas – como fizeram alguns jornais e jornalistas – e tomar os telegramas e deixar escapar “o império”. Cada corpus tem seu tamanho.

Para obter o nível correto de abstração – que considere as relações entre a maioria dos telegramas de uma região ou país, em vez de considerar os telegramas isoladamente, é preciso abordagem mais bem informada. Mas é abordagem tão natural, que o estranho é que não tenha sido tentada antes.

Há muito tempo, o estudo dos impérios tem sido o estudo das comunicações imperiais. Gravados em pedra ou traçados em pergaminhos, impérios, da Babilônia à dinastia Ming deixaram registros comunicacionais do centro organizacional em contato com as periferias.

Mas, lá pelos anos 1950s, estudantes dos impérios históricos deram-se conta de que, de algum modo, a comunicação era o império. Seus métodos para organizar a inscrição, o transporte, a indexação e o arquivamento das comunicações e para designar quem tinha autorização para ler e escrever as peças de comunicação, em sentido muito real, constituíam o império. Quando mudavam os métodos que um império usava para comunicar, o império também mudava.

A fala tem vida breve, mas a pedra dura muito mais. Alguns métodos de escrita, como gravação em pedra, serviram bem à transmissão de regras institucionais condensadas que tinham de continuar a ser comunicadas por meses e anos seguintes. Mas esses métodos não conseguiam acompanhar o desenrolar rápido dos eventos, nem garantiam que se preservasse a nuança ou o sigilo oficial, porque eram gravados em pedra.

Para cuidar dessas brechas, os impérios e seus sistemas de escrita lenta ainda tinham de depender pesadamente do mais velho e mais efêmero dos meios de comunicação da história da humanidade: a fala, as convenções da oralidade.

Outros suportes, como o papiro, eram leves e de produção rápida, mas frágeis. Esses suportes de comunicação tinham a vantagens de serem fáceis de construir e transportar, unificando regiões ocupadas mediante fluxo rápido de informação que podia também alimentam uma gestão central reativa. Tal centro bem conectado podia integrar as correntes de inteligência que iam e vinham e rapidamente projetar adiante as decisões, embora daí pudessem resultar e frequentemente resultassem tendências a perder de vista o longo prazo, sob pressão do curtíssimo prazo; e tendências à gestão micro, praticamente sem macro.

Mar, deserto ou montanha podem ser cruzados ou contornados com mais ou menos trabalho e gastos; e recursos de energia podem ser descobertos ou roubados. Mas a capacidade de um império para projetar seus desejos estrutura e conhecimento, para que cruzem tempo e espaço, determina um limite absoluto à própria existência do império.

Culturas e economias comunicam-se mediante todas as técnicas pelas regiões e ao longo dos anos, da evolução de piadas partilhadas viralmente entre amigos, até a difusão dos preços pelas rotas comerciais.

Mas só a capacidade para comunicar-se não faz um império. A marca registrada de todos os impérios é o esforço estruturado para administrar, pela comunicação, um amplo sistema cultural e econômico. E são os registros desse tipo de comunicação, que não são feitos para serem dissecados – e, portanto, são especialmente vulneráveis à dissecção – que constituem a base para que se compreenda a natureza do único “império” que ainda resta no mundo.

Anatomia do Império Norte-americano

E onde está esse império?

Todos os dias de semana, 71 mil pessoas, em 191 países, representando 27 diferentes agências do governo dos EUA, saem de casa e atravessam jardins onde drapeja a bandeira, cercas de arame, portas de aço e guardas armados para entrarem num dos 276 prédios fortificados que constituem as 169 embaixadas e outras missões do Departamento de Estado dos EUA.

Nessa marcha são acompanhados por representantes e agentes de 27 outros departamentos e agências, inclusive a Central Intelligence Agency, a National Security Agency, o Federal Bureau of Investigation e os vários ramos dos serviços militares dos EUA.

Dentro de cada embaixada há um embaixador quase sempre bem próximo do poder político, empresarial ou de inteligência dos EUA; diplomatas de carreira especializados em política, economia e diplomacia pública do estado hospedeiro; administradores, pesquisadores, adidos militares, espiões protegidos pelo serviço diplomático, gente de outras agências do governo dos EUA (em algumas embaixadas há até militares armados ou forças clandestinas das operações especiais); fornecedores, pessoal da segurança, técnicos, tradutores contratados no locar, pessoal de limpeza e de outros serviços.

No telhado desses prédios há antenas de rádio e de satélite, algumas conectadas diretamente com os EUA, para receber ou despachar telegramas diplomáticos e da CIA, algumas para distribuir informações sobre aviões e navios militares dos EUA, outras implantadas pela Agência de Segurança Nacional para interceptação massiva do tráfego de telefones celulares e outros dispositivos sem fio da população hospedeira.

O serviço diplomático dos EUA foi criado na Revolução, mas o moderno Departamento de Estado foi criado no ambiente do pós-2ª Guerra Mundial.

Suas origens coincidem com a indicação de Henry Kissinger ao posto de secretário de Estado, em 1973. A indicação de Kissinger foi inusual em vários aspectos. Kissinger não chefiou só o Departamento de Estado; ele foi nomeado também conselheiro de segurança nacional, o que facilitou integração muito mais íntima entre os braços de relações exteriores, militar e de inteligência do governo dos EUA.

Embora o Departamento de Estado há muito tempo tivesse um sistema de telegramas, a nomeação de Kissinger levou a mudanças logísticas no modo como os telegramas eram redigidos, indexados e arquivados. Pela primeira vez, a massa central dos telegramas foram transmitidos por meio eletrônico. Esse período de grande inovação ainda está presente no modo como o departamento opera hoje.

O Departamento de Estado dos EUA é único entre as burocracias formais dos EUA. Outras agências aspiram a administrar uma função ou outra, mas o Departamento de Estado representa, e inclusive hospeda, todos os grandes elementos do poder nacional dos EUA. É quem assegura clandestinidade à CIA, provê o equipamento para interceptação em massa na NSA, espaço para escritório e operação e instalações de comunicação para o FBI, para as agências militares e outras agências do governo e pessoal, para que possam atuar como agentes de venda e conselheiros políticos para as grandes empresas norte-americanas.

Ninguém pode, do lado de fora, compreender adequadamente uma instituição como o Departamento de Estado, assim como os artistas do Renascimento não poderiam saber como funcionavam os bichos sem dissecá-los e espiar diretamente o lado de dentro. Como aparelho diplomático dos EUA, o Departamento de Estado está diretamente envolvido em dar rosto externo amigável ao império, ocultando cuidadosamente suas engrenagens internas.

Todos os anos, mais de $1 bilhão é reservado, em orçamento, para “diplomacia pública”, expressão higienizada para o que jamais passa de propaganda descarada. O objetivo explícito da diplomacia pública é influenciar jornalistas e a sociedade civil, de modo que passem a servir como conduítes para as mensagens do Departamento de Estado.

Enquanto arquivos nacionais produziram coleções significativas de comunicações internas do Estado, o material deles é intencionalmente reservado ou tornado de difícil acesso durante décadas, até que já não tenha qualquer potência política. É inevitável, porque os arquivos nacionais não são estruturados para resistir ao revide (que vem sob a forma de demissão de funcionários ou suspensão de financiamentos) que arquivos atualizados e acessíveis, de significação internacional, fatalmente produziriam.

O que dá potência à revelação de comunicações secretas é que são textos que ninguém supunha que nós algum dia lêssemos. As comunicações internas do Departamento de Estado dos EUA são o subproduto logístico de suas atividades: a publicação é como a vivissecção de um império ainda vivo, que mostra que substância fluída de um órgão estatal para outro.

Telegramas diplomáticos não são redigidos com o objetivo de manipular o público; eles visam a elementos dentro de outros espaços do aparelho de Estado dos EUA e, portanto, estão relativamente livres da influência enviesante, das ‘relações públicas’. Ler esses telegramas é modo muito mais efetivo para compreender uma instituição como o Departamento de Estado, do que ler ‘informes’ jornalísticos sobre pronunciamentos públicos de Hillary Clinton ou de Jen Psaki[diretora de comunicações da Casa Branca].

Nas comunicações internas os funcionários do Departamento de Estado também têm de se manter alinhados às mais atualizadas ortodoxias do Departamento de Estado pelas razões “certas”, não “erradas”, se quiserem se manter empregados de Washington; e esses elementos de ‘correção política’ são eles próprios também eloquentes e visíveis para quem não tenha sido suficientemente ‘doutrinado’.

Muitos telegramas são deliberativos ou logísticos, e as relações causais entre eles, ao longo do tempo e do espaço, com outros telegramas e com eventos documentados externamente criam uma rede de limitações à interpretação que mostram, com confiabilidade, como o Departamento de Estado dos EUA e as agências que interoperam com esse sistema de telegramas compreendem o lugar que têm no mundo.

Só se alguém se aproxima holisticamente desse corpus – além e acima da documentação de cada abuso individual, de cada atrocidade localizada –, é possível ter uma visada do custo humano das convulsões do império.

Segurança Nacional como religião e a International Studies Association

Embora exista ampla literatura sobre a análise estrutural ou da realpolitik das instituições chaves do poder dos EUA, vários fenômenos ritualísticos e quase religiosos que cercam o setor de segurança nacional dos EUA sugerem que essas abordagens, elas sós, não têm suficiente poder explicativo.

Esses fenômenos são familiares, no ritual de dobrar a bandeira, na veneração às ordens e elaborada genuflexão aos superiores, mas também podem ser vistos na reação extraordinária que as revelações de WikiLeaks desencadearam – reação que permite que se vejam alguns dos seus traços mais interessantes.

Quando WikiLeaks publica documentos do governo dos EUA com as marcas da classificação – uma espécie de “selo de santificação” da segurança nacional, se quiserem –, começam duas campanhas paralelas: primeiro, a campanha pública de encobrir e desviar a atenção para qualquer outro ponto, que contribua para remodular quaisquer revelações que ameacem o prestígio da segurança nacional; e, segundo, uma campanha interna ao estado de segurança nacional, para digerir o que aconteceu.

Quando documentos que levem o tal “selo de santificação” são tornados públicos, são transubstanciados em objetos proibidos que se tornam tóxicos para o “estado-dentro-do-estado” – os mais de 5,1 milhões de norte-americanos (em 2004) com licenças válidas de segurança, e uma periferia estendida, que aspira ao patrocínio econômico ou social do mesmo “estado-dentro-do-estado”.

Há um nível de histeria e de não corporalidade nessa reação às revelações de WikiLeaks que não é facilmente capturado pelas teorias tradicionais do poder. Muitas religiões e cultos garantem à respectiva categoria sacerdotal um valor a mais, ao tornar secretos para o grande público ou a ordens inferiores de devotos, os textos sacros. Essa técnica também permite que a categoria dos sacerdotes adotem diferentes estratégicas psicológicas, para diferentes níveis de doutrinamento.

O que é risível, hipócrita ou maquiavélico para o público ou para níveis inferiores de ‘autorização de segurança’ é abraçado pelos que já se tornaram suficientemente doutrinados ou foram cooptados para agir como se as vantagens econômicas e sociais de que gozam dependessem de eles aceitarem o que rejeitariam, em condições normais.

Publicamente, o governo dos EUA declarou – falsamente – que qualquer pessoa com autorização da segurança que distribuísse documentos “classificados” viola o “Espionage Act” de 1917. Mas as alegações da campanha interna do “estado-dentro-do-estado” operam na direção oposta. Ali, a campanha ordena que só quem a lei oficialmente autoriza pode legalmente ler documentos declarados “classificados” – e isso, para impedir que muitos leiam documentos de WikiLeaks, e que a mídia associada ao governo publique documentos assinalados como “sigiloso”; não vá acontecer de toda essa gente ser “contaminada” pelos tais documentos!

Por mais que dado documento possa ser lido pelo pessoal ‘autorizado’ quando distribuído por um dos repositórios oficiais de documentos sigilosos, o mesmo pessoal é proibido de pôr os olhos no exatamente mesmo documento, se aparecer de fonte pública. No caso de empregados ‘com autorização’ da segurança nacional lerem tais documentos no âmbito do domínio público, é dever deles autodenunciar o contato que tenham tido com o texto recentemente profanado, e destruir todos os traços e rastros que o documento tenha produzido.

Essa resposta é, é claro, irracional. Os telegramas sigilosos e outros documentos publicados por WikiLeaks e pela mídia associada são absoluta e completamente idênticos às versões oficialmente acessíveis aos portadores das autorizações para os mais altos níveis da segurança, posto que se originaram lá: são cópias eletrônicas.

Não só que seja impossível distinguir originais e cópias – absoluta e literalmente não há qualquer diferença. Nem uma palavra. Nem uma letra. Nem um único bit.

A implicação é que há alguma propriedade não física que se incorpora aos documentos tão logo recebam as marcas de sigilo; e que esses traços mágicos se extinguem, não por alguém copiar o documento, mas por alguém tornar pública a cópia. Para os devotados do estado de segurança nacional, o documento depois de tornado público não apenas perde aquela propriedade mágica e volta a ser objeto vulgar, mundano; ele incorpora outra diferente propriedade não física: é possuído pelo mal, passa a ser objeto maléfico.

Esse tipo de pensamento religioso tem consequências. Não é só a desculpa usada pelo governo dos EUA para impedir que milhões de pessoas que trabalham para o “estado dentro do estado” leiam mais de 30 diferentes domínios de WikiLeaks: a mesma desculpa foi usada também para impedir que The New York Times, Guardian, Der Spiegel, Le Monde, El País e outros veículos publicassem os materiais de WikiLeaks.

De fato, em 2011 o governo dos EUA lançou o que bem se pode chamar de “uma fatwa WikiLeaks” sobre todas as agências do governo federal e todos os funcionários do estado e todas as empresas contratadas para prestar serviços de segurança ao governo federal:

“A recente divulgação de documentos do governo dos EUA por WikiLeaks causou dano à nossa segurança nacional (…) Informação classificada, esteja ou não já postada em websites públicos, exposta na mídia ou por qualquer outra via tenha chegado ao domínio público, permanece sendo informação sigilosa e deve receber tratamento correspondente, até que seja declarada não sigilosa pela autoridade adequada do governo dos EUA. (…)

Fornecedores e contratados, prestadores de serviços de qualquer tipo, que inadvertidamente tenham exposto informação sigilosa no domínio público, devem reportar imediatamente que o fizeram, aos Facility Security Officers de sua unidade ou empresa. As empresas são instruídas a deletar o material ofensivo pressionando as teclas SHIFT+DELETE para sistemas baseados em Windows; e devem esvaziar o cache do internet browser.”

Depois de contatada por funcionário do Departamento de Estado dos EUA, a Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Columbia University alertou os alunos para que

“não postem links para esses documentos nem façam comentários em sites de mídias sociais como Facebook ou por Twitter. Engajar-se nessas atividades levantará dúvidas sobre a capacidade para operar com informação confidencial, requisito para a maioria das funções dentro do governo federal.”

Inúmeros departamentos do governo e outras entidades, inclusive a Biblioteca do Congresso, bloquearam, para WikiLeaks, o acesso internet. Os Arquivos Nacionais dos EUA bloquearam pesquisas em seus próprios bancos de dados, para qualquer expressão que inclua “WikiLeaks.”

O tabu tornou-se completamente absurdo, como cão farejando sem parar não importa para que lado nem à procura do quê, que acaba por farejar o próprio sub-rabo. Em março de 2012, o Pentágono já entrara em tal surto, que criou um filtro automático para bloquear quaisquer e-mails, inclusive os próprios e-mails internos do Pentágono, que contivessem a palavra “WikiLeaks.”

Resultado também disso, os advogados do Pentágono que construíam a acusação contra a analista de inteligência dos EUA, cabo Manning, suposta fonte dos telegramas de Cablegate, tiveram de protestar, porque não estavam recebendo e-mails importantes nem do juiz nem da defesa.

Mas o Pentágono não removeu o filtro – em vez disso, o procurador-chefe major Ashden Fein disse à corte que um novo procedimento havia sido implantado para bloquear e-mails relacionados com WikiLeaks. A juíza militar coronela Denise Lind disse que seriam criados e-mails especiais, novos, para a procuradoria.

Por mais que essa histeria religiosa pareça cômica fora do setor de segurança nacional dos EUA, resultou em grave miséria de análises do material publicado por WikiLeaks nos periódicos de relações internacionais nos EUA. Mas especialistas em outras disciplinas (direito, linguística, estatística aplicada, saúde e economia) não se deixaram intimidar tão completamente.

Por exemplo, em artigo de 2013 para o periódico de estatística Entropy, DeDeo et al. (todos cidadãos norte-americanos ou britânicos) – escrevem que Diário da Guerra do Afeganistão de WikiLeaks “provavelmente se tornará conjunto padrão para dois estudos, do conflito humano e dos métodos empíricos para análise de dados complexos, multimodais.”

Tem havido uso extensivo do material de WikiLeaks, especialmente em tribunais domésticos, do Reino Unido ao Paquistão, e em tribunais internacionais, da Corte Europeia de Direitos Humanos ao Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia.

Comparada aos milhares de citações em cortes e em várias áreas acadêmicas, a miséria da cobertura por periódicos norte-americanos de Relações Internacionais parece, não simplesmente esquisita, mas suspeita. Esses periódicos, que dominam globalmente o estudo de Relações Internacionais, deveriam ser espaço óbvio para análises respeitáveis do corpus de dois bilhões de palavras diplomáticas de WikiLeaks.

O periódico norte-americano International Studies Quarterly (ISQ), dos mais importantes periódicos de Relações Internacionais do mundo, adotou política de rejeitar originais baseados em material de WikiLeaks – mesmo que se reduzissem a citações de análises derivadas. Nos termos de artigo ainda não publicado [já está publicado] “Who’s Afraid of WikiLeaks? Missed Opportunities in Political Science Research” [Quem tem medo de WikiLeaks? Oportunidades desperdiçadas em pesquisa de ciência política], o editor de ISQ disse que a revista está atualmente “numa posição insustentável”, e lá continuará até que se modifique a política da influente International Studies Association (ISA).

A ISA tem mais de 6.500 membros em todo mundo e é a associação de especialistas hegemônica no campo. A ISA também publica Foreign Policy Analysis, International Political Sociology, International Interactions, International Studies Review, e International Studies Perspectives.

O presidente da ISA, de 2014 a 2015, é Amitav Acharya, professor da Escola de Serviço Internacional na American University em Washington, DC. Quase a metade dos 56 membros do conselho diretor dessa escola são professores de departamentos similares em todos os EUA, muitos dos quais operam como escolas ‘alimentadoras’ para o Departamento de Estado dos EUA e outras áreas do governo orientadas internacionalmente.

Que a ISA tenha censurado o arquivo mais significativo sobre política externa dos EUA e impedido que seja considerado nos textos de especialistas que publica – ato que, além do mais, esvazia quaisquer ambições de respeitabilidade e seriedade institucionais a ISA ainda tivesse – põe em questão toda a produção científica daquele corpo especializado, produção que influenciara muito significativamente o modo como o mundo passou a compreender o papel dos EUA na ordem internacional.

Até o próprio movimento de a academia cerrar fileiras para proteger os interesses do Pentágono e do Departamento de Estado já exige, só ele, análise detalhada. A exclusão de qualquer referência aos telegramas, das páginas de periódicos especializados em Relações Internacionais, é uma modalidade de fraude acadêmica. Proibir qualquer referência a fontes primárias por razões não acadêmicas é mentir por omissão.

A mesma mentira aponta também para insight de muito maior amplitude: a distorção da informação, no campo das relações internacionais e disciplinas correlatas, pela proximidade entre as estruturas acadêmicas e o governo dos EUA. Essas estruturas são menos independentes, até, que o tantas vezes reverente New York Times, o qual, por mais que se comprometa com variadas formas de censura aos telegramas, publicou, pelo menos, mais de uma centena deles.

A distorção operada por empresas jornalísticas no estudo de Relações Internacionais e a censura de WikiLeaks são exemplos claros de um problema. Mas identificá-lo é oportunidade também para analisar as relações internacionais que não foram aleijadas pela censura de materiais sigilosos.

O mundo segundo o Império dos EUA

The WikiLeaks Files: The World According to U.S. Empire (Verso, 2015) começa falando da necessidade de os especialistas analisarem o que os milhões de documentos publicados por WikiLeaks dizem sobre geopolítica internacional. Os capítulos fazem uma abordagem em constelação desses documentos, para mostrar como os EUA lidam com várias dinâmicas de poder regionais e internacionais.

É impossível cobrir a riqueza de material ou de relações nesse primeiro volume, mas espero que esse trabalho estimule jornalistas e acadêmicos a trabalharem para superá-lo.

O Capítulo 1 reflete o status dos EUA como um “império” e considera o que isso significa, buscando caracterizar o poder econômico, militar, administrativo e diplomático dos EUA com referência ao grande arco da história global ao longo do último século.

O capítulo estabelece o quadro geral do “imperialismo do livre comércio” que o restante da Parte II desenvolve – um quadro no qual o poder militar dos EUA é usado não para obter expansão territorial, mas para perpetuar a preeminência econômica dos EUA. Esses dois temas são considerados em mais detalhes nos Capítulos 2 e 3. O Capítulo 1 também situa WikiLeaks no contexto de um crescimento sem precedentes do secretismo oficial, e a evolução do poder dos EUA depois do início da “guerra ao terror”.

O Capítulo 2 examina os materiais de WikiLeaks sobre a chamada “guerra ao terror”. Além de prover um sumário detalhado dos crimes de guerra e abusos dos direitos humanos documentados nas publicações de WikiLeaks, além de revisão histórica detalhada da invasão e da ocupação do Iraque pelos EUA e consequente desastre que ali se arrasta até hoje, o capítulo também extrai conclusões sobre a subestrutura ideológica e conceitual as “guerra ao terror” norte-americana, e investiga como um aspecto da prerrogativa imperial dos EUA é exercer poder decisivo para garantir que expressões como “guerra justa”, “tortura”, “terrorismo” e “população civil” sejam definidas a favor dos EUA.

A discussão recolhe provas de todo o conjunto das publicações de WikiLeaks e também de outras fontes, como o recente relatório da tortura da CIA. No processo, o capítulo também examina os duplos padrões e os problemas que brotam do uso pervertido desses conceitos (inclusive a tentativa para deslegitimar e marginalizar o próprio WikiLeaks).

O Capítulo 3 embarca em discussão aprofundada do “império do livre comércio” – o relacionamento da forma de império norte-americano com a promoção universal da reforma econômica neoliberal, garantindo às empresas norte-americanas acesso aos “mercados globais”.

O capítulo examina os telegramas do Departamento de Estado publicados por WikiLeaks, e publicações de 2007, também de WikiLeaks, sobre o “setor privado” incluindo material sobre bancos e negociações para o tratado global multilateral. O capítulo oferece exemplos iluminadores de como o impulso rumo à integração econômica serve como andaime de apoio à posição dos EUA, como um império ao alcance da mão, e provê pseudo legitimação para os padrões de intervenção, militar ou de outro tipo, como os praticados na América Latina e em outros pontos.

O Capítulo 4 é um guia faça-você-mesmo de como usar uma Biblioteca Pública WikiLeaks da Diplomacia dos EUA (PlusD), redigido pela editora de pesquisas Sarah Harrison. Quando essa introdução foi escrita, a Biblioteca PlusD continha 2.325.961 telegramas e outros registros diplomáticos. O Departamento de Estado usa sua própria lógica para criar, transmitir e indexar esses registros, a totalidade dos quais forma sua memória institucional primária.

Harrison explica como começar a procurar, ler e interpretar metadados e conteúdo dos telegramas, desde a infame proibição CHEROKEE de usar eufemismos do Departamento de Estado do tipo “opor-se ao nacionalismo de recursos”.

A história da política dos EUA para a Corte Internacional de Justiça [International Criminal Court (ICC)] é rico estudo de caso sobre o uso da diplomacia num esforço organizado para minar uma instituição internacional.

No Capítulo 5, Linda Pearson documenta o que os telegramas revelam sobre os esforços de sucessivos governos dos EUA para limitar a jurisdição da ICC. Nos telegramas há desde propinas e ameaças usadas pelo governo de George W. Bush para encurralar estados e obrigá-los a assinar pedidos para que a Corte Internacional de Justiça garanta imunidade para que cidadãos norte-americanos não sejam acusados por crimes de guerra; e, já no governo Obama, esforços um pouco mais sutis para modelar a ICC convertendo-a em força adjunta da política exterior dos EUA.

Japão e Coreia do Sul foram epicentros da influência dos EUA no Leste da Ásia durante décadas. Os telegramas documentam quase dez anos de esforços dos EUA para influir em resultados da política doméstica nesses dois países alinhados com seus próprios interesses de longo prazo.

No Capítulo 14, o jornalista de investigação Tim Shorrock examina o triângulo geopolítico criado pelas relações dos EUA com aqueles dois países, incluindo as tentativas de jogar um contra o outro, como parte dos esforços de longo prazo para minar governos de esquerda e políticas dentro da região.

Do crescimento do PIB global ao longo da última década, mais de 50% estava no Sudeste Asiático. Esse entendimento levou a um explícito deslocamento das forças militares, diplomáticas e de vigilância, para aquela parte do mundo, que teve seu auge na estratégia de “diplomacia enviada à frente” [orig. forward deployed diplomacy] como a apresentou a secretária de Estado Hillary Clinton.

No Capítulo 15, Richard Heydarian examina os telegramas sobre o Sudeste Asiático e situa suas percepções e achados numa crítica histórica mais ampla da influência dos EUA naquela região.

A crítica do imperialismo ocidental é mais contencioso em regiões do mundo que, historicamente, foram protetorados dos EUA, como a Europa ocidental.

De tal modo os liberais europeus estão doutrinados na moderna ideologia imperialista, que até a ideia de que os EUA possam estar administrando um império global é descartada, rotineiramente, com referências a conceitos como “direito de proteger” – demonstrando surdez voluntária, não só para a estrutura do poder dos EUA ao redor do mundo, mas também para o quanto os EUA falam cada vez mais frequentemente deles mesmos como “império”

No Capítulo 6, Michael Busch examina os amplos padrões de influência e subversão adotados pela superpotência global sobre os sistemas políticos da Europa e dos estados-membros. Os temas incluem colusão do governo europeu com os programas de ‘entregas especiais’ e tortura de prisioneiros, a subversão da justiça criminal europeia e sistemas judiciais para resgatar empregados do estado nos EUA acusados de prática de tortura e salvá-los de processos; e o uso da diplomacia norte-americana para abrir mercados europeus para as empresas aeroespaciais dos EUA, ou para tecnologias e patentes invasivas, monopolistas, com os organismos geneticamente modificados da Monsanto.

No Capítulo 13, Phyllis Bennis opta por uma visada ampla sobre as publicações de WikiLeaks sobre o Afeganistão – incluindo não só os telegramas do Departamento de Estado, mas também os Significant Action Reports (SIGACTs), publicados por WikiLeaks como Afghan War Diary, Congressional Research Reports e outros documentos sobre o Afeganistão publicados por WikiLeaks antes de 2010.

O que emerge é uma avaliação incisiva do enlouquecido envolvimento dos militares norte-americanos no Afeganistão desde 2001 e o custo daquilo, em termos de vidas humanas e bem-estar social.

Geopolítica é coisa complicada, muito mais em relação a um país como Israel. A dominação militar de Israel no Oriente Médio; suas relações diplomáticas com outros atores regionais como Egito, Síria, Irã, Líbano e Turquia; o papel de Israel como avatar da política imperial dos EUA naquela área; a exploração desmesurada desse status protegido, por Israel, para fazer avançar as próprias políticas genocidas israelenses contra o povo palestino – todos esses são temas trazidos à tona no Capítulo 9, por Peter Certo e Stephen Zunes, que interrogam cuidadosamente os telegramas do Departamento do Estado relevantes para essa pesquisa.

No Capítulo 11, sobre o Irã, Gareth Porter oferece excelente acompanhamento para interpretar o capítulo sobre Israel, escolhendo focar no que os telegramas revelam sobre o impasse geopolítico tripartido –  EUA, Israel e Irã – e a sombra que essa estrutura lança sobre o resto do Oriente Médio.

De modo particular, Porter foca as conversações do P5+1 sobre o programa iraniano de enriquecimento nuclear, os esforços dos EUA para manipular informes de inteligência, para fazer pender contra o Irã o consenso internacional, e o papel de Israel, tanto como catalisador como agente da política dos EUA no Oriente Médio.

O conflito no Iraque é o foco do Capítulo 12, de autoria do jornalista Dahr Jamail, que trabalha sobre ampla faixa de materiais de WikiLeaks, para concluir que os EUA tinham uma política deliberada para exacerbar as divisões sectárias no Iraque depois de invadirem e ocuparem o país, na certeza de que nessas circunstâncias seria mais fácil dominar o país.

A consequente devastação é documentada em dolorosos detalhes colhidos dos materiais de WikiLeaks, incluindo telegramas diplomáticos, Congressional Research Reports datados do período 2005-2008 e os arquivos da guerra do Iraque a partir de 2010.

Jamail dedica especial atenção ao movimento “Sahwa” – o programa de contrainsurgência patrocinado pelos EUA, que foi implementado para responder à crescente influência de afiliados da al-Qaeda entre iraquianos sunitas agredidos pelo governo de Nouri al-Maliki, xiita e vassalo dos EUA.

Os EUA pagaram um grande número de iraquianos para que desertassem da insurgência sunita e passassem a lutar contra a al-Qaeda, sob a promessa de que receberiam emprego regular, mediante a integração ao exército regular iraquiano. Como Jamail explica, o fracasso do governo Maliki, que não honrou essa promessa, fez com que altos números de militantes sunitas – treinados pelos EUA, armados pelos EUA e pagos pelos EUA, mas não empregados – voltasse à insurgência, o que ajudou a inchar as fileiras do grupo antigo afiliado no Iraque, da al-Qaeda, o qual, em 2014, passou a ser conhecido como ISIS, ou “Estado Islâmico”.

Os telegramas também informam como, através da fronteira nordeste do Iraque, na Síria, a cena foi construída para a emergência do ISIS. Desde o início dos tumultos na Síria, em 2011, propagandistas pró-guerra na mídia exigiram que os militares ocidentais atacassem a Síria para depor o presidente Bashar Al-Assad – apresentado, no linguajar típico do intervencionismo liberal, como “um novo Hitler”.

A emergência do Estado Islâmico, ante o qual o único contrapeso viável dentro da Síria é o governo Assad, desmontou esse consenso propagandístico.

Mas o desígnio do governo dos EUA sobre mudança de regime na Síria, e a devoção dos norte-americanos à instabilidade regional, vêm de muito antes da guerra na Síria – o que os telegramas demonstram e comprovam.

No Capítulo 10, Robert Naiman oferece leitura cuidadosa dos telegramas de Damasco, destacando importantes pressentimentos históricos da atual situação na Síria, e desmontando as construções pró direitos humanos, só aparentemente benignas, de diplomatas norte-americanos, para trazer à luz a inflexão imperialista da política externa dos EUA e de sua retórica para a Síria – incluindo esforços muito concretos, dentro do país, para minar o governo e instaurar o caos, e que começaram uma década antes de 2011.

Há muitos clichês sobre a Turquia ser “uma ponte entre Oriente e Ocidente”, mas não há como negar que esse país, de cerca de 75 milhões de habitantes, ocupa posição importante – seja como ator regional na geopolítica do Oriente Médio, seja como grande e economicamente poderosa democracia nominal, na franja da Europa.

Como Conn Hallinan escreve no Capítulo 8, os telegramas do Departamento de Estado ilustram os esforços, pelos EUA, para explorar a rica significação geopolítica da Turquia. Hallinan usa os telegramas como pretexto para examinar as alianças regionais, as preocupações estratégicas e os assuntos internos da Turquia. Entre os tópicos que ele cobre, estão os complexos cálculos estratégicos para a energia, que exige relações delicadas que a Turquia cultiva com o Irã e a Rússia, assim como também cultiva com EUA, Europa e Israel, no esforço para ganhar acesso aos mercados ocidentais.

Esse capítulo também examina o poder de barganha da Turquia, visível no modo como usou o veto contra a eleição do ex-primeiro ministro dinamarquês Anders Rasmussen ao posto de comandante da OTAN, para assim obrigar os EUA a pressionarem o governo dinamarquês a fechar um canal de televisão curdo que transmitia da Dinamarca.

O ensaio também examina questões internas da Turquia, como a política de governo contra grupos separatistas curdos, e o extraordinário conflito político subterrâneo e muita intriga entre Recep Tayyip Erdoğan e o expatriado e figura política muito influente Fethullah Gülen.

Desde o fim da Guerra Fria, e especialmente durante a chamada “guerra ao terror”, a diplomacia dos EUA tendeu para o sul, o centro e o leste da Ásia. Exceto no caso de um ou dois casos pontuais de atrito, as relações EUA-Rússia deixaram de aparecer como principal dinâmica geopolítica na consciência popular.

Isso, claro, mudou, como um dos efeitos do conflito na Ucrânia. Mas a consciência popular não é a realidade. Como Russ Wellen mostra no Capítulo 7, na década depois da virada do século, os EUA praticaram política de expansão agressiva da OTAN, desafiando a hegemonia regional da Rússia dentro da Europa Ocidental e a área da URSS, e procurando subverter tratados nucleares, no esforço para preservar sua vantagem estratégica.

Como os telegramas mostram, esses esforços não passaram despercebidos dos russos, e há pontos de conflito que sempre reaparecem nas relações diplomáticas EUA-Rússia, mesmo durante o mais cordial dos períodos. O capítulo oferece o necessário contexto para as tensões que se veem infladas hoje entre leste e oeste, em torno de Síria e Ucrânia – além da questão do asilo que a Rússia deu a Edward Snowden – e oferece insight crítico sobre uma relação geopolítica que, se mal conduzida, ameaça a sobrevivência de nossa civilização e de nossa espécie.

Talvez nenhuma região do planeta demonstre tão vivamente o pleno espectro da interferência imperial dos EUA, como a América Latina. Desde os anos 1950s, a política dos EUA na América Central e na América do Sul popularizou o conceito do “golpe de estado da CIA“, depondo presidentes de esquerda democraticamente eleitos e instalando no poder ditaduras de direita pró-EUA; inaugurando o legado macabro de brutais guerras civis, esquadrões da morte, tortura e desaparecidos políticos; e condenando milhões à miséria, em benefício da classe governante nos EUA.

Como Alexander Main, Jake Johnston e Dan Beeton observam no Capítulo 17, o primeiro de seus capítulos sobre a América Latina, a imprensa em língua inglesa na região não viu mal alguns nos telegramas do Departamento de Estado, e não se cansou de repetir que não se encaixam no “estereótipo dos EUA conspirando para dar golpes, só preocupados com interesses comerciais e só se aliando à direita”.

A verdade é o exato oposto disso: os telegramas demonstram uma continuidade perfeita entre a brutal política dos EUA para a América Latina durante a Guerra Fria e os movimentos mais sofisticados de derrubar governos que tiveram lugar em anos mais recentes.

O Capítulo 17 oferece ampla visão do uso da USAID e de ações políticas ou publicitárias da “sociedade  civil” concebidas para dar a impressão de que são movimentos espontâneos e populares, dentre outros métodos mais diretos para obter “mudança de regime” em El Salvador, Nicarágua, Bolívia, Equador e Haiti.

O Capítulo 18, dos mesmos autores, foca a Venezuela, o inimigo socialista da hora, e, especificamente os esforços dos EUA para minar o país como força avançada regional de esquerda, desde o falhado golpe apoiado pelos EUA contra o governo do presidente Chávez em 2002.

A resposta dos EUA à divulgação do material de WikiLeaks trai a crença de que o poder deles residiria numa disparidade de informação: cada vez mais conhecimento para o império, cada vez menos para os súditos.

Em 1969, Daniel Ellsberg – mais tarde famoso por vazar os Pentagon Papers – tinha autorização de segurança que lhe garantia acesso à informação top-secret. Henry Kissinger solicitara o mesmo tipo de autorização. Ellsberg alertou-o para os perigos daquela autorização:

“Vai ficar muito difícil para você aceitar qualquer coisa de qualquer um que não tenha essas mesmas autorizações. Porque você sempre pensará, ao ouvir o que lhe dizem: ‘O que esse homem me diria, se soubesse o que eu sei? Será que me daria a mesma opinião, o mesmo aconselhamento? Ou mudaria completamente as suas previsões e recomendações?’ E ao lidar com alguém que não tenha essas autorizações, você estará condenado ao ponto de vista do que você deseja fazê-lo acreditar e da impressão que quer que ele leve de você, porque você terá de mentir cuidadosamente a ele, sobre o que você sabe. De fato, você estará obrigado a manipulá-lo. Você acabará por desistir de avaliar o que essas pessoas lhe digam. O risco é você converter-se numa espécie de imbecil. Você deixará de acreditar em praticamente todo o resto do mundo, não importa o quanto alguém saiba ou tenha experiência nas respectivas áreas específicas, e que podem ser saberes e experiência muito maiores que as suas.”
Libertados dos selos de sigilo e secretismo, os materiais de WikiLeaks saltam sobre o fosso entre os “imbecis” com autorização de segurança máxima, mas incapazes de ouvir, entender, aprender ou descobrir, e nós, seus leitores, afinal livres para fazer tudo isso, com o que eles escreveram.

The WikiLeaks Files: The World According to US Empire
Introduction by Julian Assange
Published in collaboration with WikiLeaks: What Cablegate tells us about US foreign policy

With contributions by Dan Beeton, Phyllis Bennis, Michael Busch, Peter Certo, Conn Hallinan, Sarah Harrison, Richard Heydarian, Dahr Jamail, Jake Johnston, Alexander Main, Robert Naiman, Francis Njubi Nesbitt, Linda Pearson, Gareth Porter, Tim Shorrock, Russ Wellen, and Stephen Zunes

Hardback, 624 pages
ISBN: 9781781688748
September 2015
£16.00
Free shipping

Fonte:  http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=15810

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