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“É contraditório cortar gastos e elevar juros numa economia em recessão” | ENTREVISTA COM GENTIL CORAZZA

Austeridade

“Vejo a crise econômica se aprofundar devido à crise política que dificulta as iniciativas do governo em busca de uma saída para os problemas”, constata o economista.

Uma série de fatores combinados explicam as causas da crise econômica brasileira, mas todos eles estão envolvidos num mesmo pano de fundo: acrise política, diz Gentil Corazza em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Na avaliação dele, entre as causas que colocaram a economia num patamar de recessão, destaca-se o fato de que o governo “subestimou os impactos da crise internacional sobre a economia brasileira”.

Além disso, explica, “uma combinação de problemas” contribuiu para complicar a situação, como “uma inflação resistente, uma taxa de juros extremamente elevada, que impõe pesados custos fiscais, e um déficit fiscal, que se acentua, sobretudo, pela queda acentuada da receita pública, em grande parte devido à desoneração fiscal praticada ao longo dos últimos anos”. E acrescenta: “Para agravar o quadro, temos um baixo crescimento e um desemprego crescente”.

Para Corazza, o retorno a um modelo que “conjuga crescimento e distribuição de renda”, como foi no governo Lula, “vai depender de como for resolvida a crise atual, em que nível vai ser possível preservar as conquistas sociais nesse segundo Governo Dilma. Depois disso, tudo dependerá da correlação das forças políticas”. Contudo, frisa, o corte de gastos, especialmente os sociais, vai depender “da correlação de forças políticas que detêm o poder no país. Se forem gastos supérfluos, não há problema, devem ser cortados. Mas, por uma questão de coerência, todos os que pregam, com tanta convicção e veemência, o corte de gastos têm a obrigação de apontar quais gastos devem ser cortados e aceitar que os seus próprios possam sofrer cortes. É contraditório cortar gastos e elevar juros numa economia em recessão”.

Gentil Corazza esteve no IHU na última quarta-feira, 09-09-2015, participando do Ciclo de Estudos O Capital no Século XXI — uma discussão sobre a desigualdade no Brasil, no qual apresentou a palestra a Renda, capital, produção e crescimento econômico mundial e brasileiro desde o século XVIII.

Na entrevista a seguir, o economista retoma os temas abordados no evento e destaca que atualmente o “sistema financeiro vem assumindo uma importância crescente na economia mundial e também na economia brasileira. (…) Por isso, ele vem assumindo também um papel cada vez mais relevante nas crises. A última grande crise mundial de 2007/2008 teve origem financeira, através da emissão explosiva e da negociação de títulos de segunda linha pelo sistema financeiro. No Brasil, na crise atual, embora ela não tenha se originado no sistema financeiro, seu comportamento é fundamental tanto para o agravamento como para a solução da crise”.

Gentil Corazza (foto abaixo) é graduado e mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor na mesma área pela Universidade de Campinas – Unicamp. Cursou o pós-doutorado na Sorbonne e foi professor e diretor da Faculdade de Economia da UFRGS.

Confira a entrevista.

Foto: João Vitor Santos / IHU

IHU On-Line – Como o senhor está analisando a crise econômica atual? É possível identificar quais são as causas dessa crise e como chegamos a esse momento em que se anuncia recessão para os próximos anos?

Gentil Corazza – A nível mundial, a crise econômica iniciada em 2007/2008 ainda não foi totalmente superada, pois restam ainda para resolver os enormes estoques de dívidas, tanto nos países da Zona do Euro, onde a Grécia é o caso mais agudo, como também nos Estados Unidos, além do problema do baixo crescimento, especialmente o da China, que acaba afetando toda a economia mundial.

No caso do Brasil, vejo a crise econômica se aprofundar devido à crise política que dificulta as iniciativas do governo em busca de uma saída para os problemas. Sem dúvida, o governo subestimou os impactos da crise internacional sobre a economia brasileira. Além das dificuldades políticas enfrentadas pelo governo para propor e praticar as medidas corretivas, temos uma combinação de problemas que complicam a situação, como uma inflação resistente, uma taxa de juros extremamente elevada, que impõe pesados custos fiscais, e um déficit fiscal, que se acentua, sobretudo, pela queda acentuada da receita pública, em grande parte devido à desoneração fiscal praticada ao longo dos últimos anos. Para agravar o quadro, temos um baixo crescimento e um desemprego crescente.

IHU On-Line – Como a crise atual pode ser analisada à luz da história do desenvolvimento econômico do Brasil?

Gentil Corazza – Crises o Brasil teve muitas e variadas ao longo de sua história e muitas delas certamente mais graves do que a atual. Para cada uma delas foram encontradas soluções. O desenvolvimento econômico brasileiro sempre foi cíclico e não linear, como, aliás, é da natureza do desenvolvimento capitalista no mundo inteiro. Não será diferente na crise atual.

IHU On-Line – Quais os erros e acertos em termos de política econômica desde a reabertura, em 88? Por que o Brasil não conseguiu mudar o seu patamar em termos de desenvolvimento e economia?

Gentil Corazza – É muito difícil apontar todos os erros e acertos da política econômica desde 1988. Nesse período, o grande problema era o baixo crescimento e a alta inflação. Os principais erros se referem aos Planos de Estabilizaçãoe o principal acerto foi o Plano Real, mas que também deixou como herança uma enorme dívida pública da ordem de 60% do PIB. Nos governos mais recentes, as maiores conquistas se referem às políticas de renda e de inclusão social, como o Bolsa Família, a moradia e a política de elevação sistemática do salário mínimo, que teve um aumento real da ordem de 70%, nos últimos anos.

“Este processo secular de concentração de riqueza só pode ser freado através de políticas públicas redistributivas”

IHU On-Line – E o que aconteceu com o modelo desenvolvimentista iniciado com Lula?

Gentil Corazza – Se é possível definir as políticas iniciadas pelo Governo Lula como um Modelo de Desenvolvimento, então ele poderia ser definido como um modelo que conjuga crescimento econômico com distribuição de renda. Foi isto que caracterizou seu governo. Em grande parte, essas políticas foram mantidas no Governo Dilma. Sua continuidade vai depender de como for resolvida a crise atual, em que nível vai ser possível preservar as conquistas sociais nesse segundo Governo Dilma. Depois disso, tudo dependerá da correlação das forças políticas.

IHU On-Line – Como a relação entre renda, capital, produção e crescimento econômico mundial tem se dado desde o século XVIII? De que modo essa relação contribui para o aprofundamento ou diminuição das desigualdades sociais? Como essa relação é analisada a partir da história brasileira e que consequências ela tem gerado em termos de aumento ou diminuição das desigualdades?

Gentil Corazza – A relação entre essas variáveis, capital, renda, produção, crescimento econômico e demográfico, constitui o núcleo central da análise de Piketty, em seu livro “O Capital no século XXI”. Seu grande mérito é tentar analisar a questão da desigualdade no capitalismo, no longuíssimo prazo, ou seja, nos últimos 300 anos, abrangendo os séculos XVIII, XIX e XX, apontando a tendência pata o século XXI. Ele analisa os dados de um conjunto de países, mas sua análise está centrada, sobretudo, na Europa, Estados Unidos e Japão.

A grande força propulsora da desigualdade é a tendência de um crescimento maior das remunerações do capital (entendido como riqueza, patrimônio), na forma de lucros, juros, aluguéis e dividendos, se comparadas às taxas de crescimento do produto e da renda. Se o estoque da riqueza acumulada no passado é remunerado a taxas maiores do que as taxas de crescimento do produto e da renda gerados no presente, a consequência lógica é um enriquecimento crescente dos proprietários do capital. As taxas históricas de remuneração do capital, nos últimos três séculos, têm sido persistentemente maiores do que as taxas de crescimento do novo produto e da nova renda gerados no processo econômico. Apenas no século XX, em função de um conjunto de fatores, como as duas Guerras, a grande crise dos anos 1930 e das políticas do Estado de Bem-Estar Social, depois da Segunda Guerra, a desigualdade deixou de aumentar no mundo.

As forças econômicas capitalistas impulsionam a desigualdade da renda e da riqueza. Este processo secular de concentração de riqueza só pode ser freado através de políticas públicas redistributivas. Essas mesmas tendências de concentração e de distribuição podem ser observadas na economia e na sociedade brasileiras. O processo capitalista é o mesmo em qualquer país, salvo peculiaridades históricas de cada país. No Brasil, a desigualdade é ainda mais acentuada, devido ao nosso passado colonial e escravista, agravado pela nossa curta e fraca experiência democrática, pois são as forças políticas e democráticas que podem atuar em favor de uma maior distribuição da renda e da riqueza e, portanto, de uma diminuição da desigualdade.

“Não há economia sem Estado, nunca houve na história”

IHU On-Line – Qual é o peso do sistema financeiro nas crises atuais?

Gentil Corazza – O sistema financeiro vem assumindo uma importância crescente na economia mundial e também na economia brasileira. Há uma dominância crescente da lógica financeira na economia. Por isso, ele vem assumindo também um papel cada vez mais relevante nas crises. A última grande crise mundial de 2007/2008 teve origem financeira, através da emissão explosiva e da negociação de títulos de segunda linha pelo sistema financeiro. No Brasil, na crise atual, embora ela não tenha se originado no sistema financeiro, seu comportamento é fundamental tanto para o agravamento como para a solução da crise.

IHU On-Line – Quais as vantagens e desvantagens da atuação do Estado na economia? No caso do Brasil, como o Estado tem atuado na economia? A atuação do Estado, em termos econômicos, tem sido positiva ou negativa?

Gentil Corazza – Não há economia sem Estado, nunca houve na história. As relações entre eles são intrínsecas e permanentes e não superficiais e esporádicas ou aleatórias. O que há são diferentes formas e graus de intervenção do Estado. Variam também os setores e funções de intervenção. As vantagens da intervenção estão associadas à qualidade das mesmas intervenções. Uma boa e eficiente atuação do Estado garante uma maior estabilidade e um melhor funcionamento da economia. Nos períodos de crise, o papel do Estado se faz mais necessário, especialmente com estímulos à demanda efetiva, para ativar as atividades econômicas. As desvantagens estão associadas à burocratização e à ineficiência das instituições e atividades estatais.

IHU On-Line – Como avalia o anúncio recente da presidente Dilma, de que os remédios para superar a crise serão amargos?

Gentil Corazza – Cortar gastos, e quais, depende da correlação de forças políticas que detêm o poder no país. Se forem gastos supérfluos, não há problema, devem ser cortados. Mas, por uma questão de coerência, todos os que pregam, com tanta convicção e veemência, o corte de gastos têm a obrigação de apontar quais gastos devem ser cortados e aceitar que os seus próprios possam sofrer cortes. É contraditório cortar gastos e elevar juros numa economia em recessão. Qualquer esforço fiscal que se faça não conseguirá se equiparar com os aumentos dos gastos provocados pela elevação das taxas de juros da dívida pública. Cortar gastos sociais significa jogar a conta do ajuste sobre os mais pobres. A Presidente Dilma fará isso? Só se for forçada pelas circunstâncias.

“Cortar gastos, e quais, depende da correlação de forças políticas que detêm o poder no país”

IHU On-Line – A independência do Banco Central contribui para a crise econômica que o país enfrenta hoje, considerando que a taxa Selic está em 12,25%?

Gentil Corazza – O Banco Central é um órgão especial do governo e deve agir de acordo com a orientação geral do governo. Ele deve se impor pela sua competência e credibilidade para guiar as expectativas do mercado e procurar fazê-las convergir para adireção da política econômica do governo. Ele pode ter autonomia operacional para atingir seus objetivos estatutários. A política econômica, fiscal, monetária e cambial deve ser uma só. Não faz sentido o Banco Central ser e agir de forma independente. É pura ilusão pensar que a independência dará mais eficácia às suas políticas. Nos Estados Unidos, o Banco Central atua com dois objetivos, que procura harmonizar, a inflação e o crescimento. No Brasil, ele só cuida da inflação e só usa um instrumento, a taxa de juros. É um tanto míope, não?

IHU On-Line – O que seria uma agenda econômica adequada para o Brasil hoje?

Gentil Corazza – Fazer de tudo para superar rapidamente a crise e retomar uma agenda de crescimento com distribuição de renda.

FONTE: IHU

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