Radical Democracia

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EUA aceitarão o bóia salva-vidas que Putin lhes oferece?

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por Robert Parry, Consortium News

Tradução Vila Vudu

Exclusivo: A obsessão dos neoconservadores com ‘mudança de regime’ na Síria está empurrando outro ‘grupo de pensamento’ da Washington oficial a ‘aconselhar’ que os EUA rejeitem a oferta russa para ajudar a estabilizar a Síria e pôr fim à terrível torrente de refugiados que buscam a salvação na Europa – escreve Robert Parry. 

por Robert Parry 

O presidente russo Vladimir Putin jogou, aos estrategistas políticos dos EUA o que equivale a uma boia salva-vidas, para ajudar a arrancá-los do poço de areia movediça que é a guerra síria. Mas os neoconservadores da Washington oficial e os veículos da grande mídia-empresa nos EUA puseram-se agora a latir contra “a audácia” de Putin, lançando dúvidas sobre os seus motivos.

Por exemplo, o principal editorial do The New York Times na 2a-feria acusava Putin de estar “aprofundando perigosamente a presença militar russa” na Síria, apesar de Putin já ter dito que seu objetivo é ajudar a enfrentar para derrotar os jihadistas sunitas no Estado Islâmico e em outros movimentos extremistas.

Por sua vez, o Times resmunga que Putin usará seu discurso na Assembleia Geral da ONU “para defender a formação de uma coalizão internacional contra o Estado Islâmico, aparentemente ignorando a coalizão que já existe para essa finalidade liderada pelos EUA.”

Na sequência, o Times retoma o bizarro argumento dos neoconservadores de que a melhor maneira de resolver a ameaça do Estado Islâmico, Al Qaeda e outras forças jihadistas seria derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad e todo o seu exército – precisamente as duas forças político-militares que há quatro anos impedem uma vitória arrasadora dos grupos sunitas terroristas naquela região.

A delirante ‘receita’ do Times/neocons nunca muda: só falam de ‘mudança de regime’ em Damasco, mudança que, milagrosamente, afinal levaria à emergência daqueles míticos rebeldes “moderados” que ninguém jamais viu, mas que, ninguém sabe como, ‘dizimariam’ extremistas muito mais numerosos e muito mais bem armados. Essa ideia ignora o fato de que, depois de um projeto de treinamento para os tais ‘moderados’, que custou $500 milhões aos contribuintes norte-americanos, os militares dos EUA já disseram que há “quatro ou cinco” deles no campo de batalha dentro da Síria. Em outras palavras, todos os membros dessa brigada treinada pelos EUA ao custo de $500 milhões podem ser contados nos dedos de uma mão.

Mas, em vez de repensar o patético “grupo de pensamento” da Washington oficial para a Síria – ou de oferecer aos leitores melhor jornalismo sobre o conflito sírio – o Times põe-se imediatamente a culpar Putin por tudo.

“Que ninguém se engane sobre a culpa da Rússia na agonia da Síria” – escreve o Times. – “Mr. Putin poderia ter ajudado a impedir a luta que já matou mais de 250 mil sírios e fez número ainda maior de migrantes e deslocados, se tivesse trabalhado com outras grandes potências em 2011 para impedir Mr. Assad de fazer guerra contra o próprio povo, por causa de pacíficos protestos antigoverno. (…) Mr. Assad provavelmente já estaria fora do governo, não fosses as armas e ajudas de todo o tipo que recebe da Rússia e do Irã.” (…)

A narrativa simplória do Times corresponde perfeitamente ao que neoconservadores influentes repetem e no que desejam que o ocidente acredite, desde que os mesmosneoconservadores incluíram a Síria na sua famigerada lista de ‘mudança de regime’, ao lado de Iraque e Irã, desde que a lista foi construída, como parte da campanha eleitoral do israelense Benjamin Netanyahu em 1996. A narrativa do Times’ também deixa de fora o papel crucial de Turquia, Arábia Saudita, Qatar e outros “aliados” dos EUA no apoio à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico a ela ligado.

E o dinheiro que Bush torrou?

Para complicar ainda mais a narrativa “A culpa de tudo é de Putin” da Washington oficial, há o papel do presidente George W. Bush e dos militares norte-americanos que lançaram as bases desses brutais movimentos de extremistas sunitas quando invadiram o Iraque na década passada.

Afinal, foi exclusivamente como reação à presença militar dos EUA, que a “Al Qaeda no Iraque” lançou raízes no território iraquiano e, na sequência, chegou à Síria.

A derrubada e posterior execução do governante sunita Saddam Hussein alienaram os sunitas da região, sim; mas, além e mais grave que isso, o desespero de Bush para tentar evitar que acontecesse total derrota militar dos EUA no Iraque durante seu segundo mandato levaram-no a autorizar o pagamento de bilhões de dólares a combatentes sunitas, para conseguir que parassem de matar soldados norte-americanos, de modo que Bush tivesse tempo para negociar uma retirada da tropa dos EUA que permanecia no Iraque.

A partir de 2006, aqueles pagamentos feitos pelos EUA para subornar grupos armados sunitas foram crucialmente importantes para conseguir que parassem de resistir contra o que então se chamava “Despertar Sunita”. Dado que o programa de suborno precedeu a “avançada” de tropas que Bush ordenou em 2007, não há dúvidas de que a trégua comprada-e-paga tornou-se central no que a Washington oficial saudou, naquele momento, como “avançada bem-sucedida” ou “afinal vencemos”.

Além dos bilhões de dólares pagos em contêineres de dinheiro dos EUA para grupos de sunitas armados, a “avançada” de Bush custou a vida de outros mil soldados norte-americanos e matou número incontável de iraquianos, muitos dos quais se ocupavam exclusivamente de seus afazeres da vida diária, até serem explodidos e reduzidos a postas de carne pela poderosa munição dos EUA. [Ver, por exemplo, o vídeo “Collateral Murder” (Assassinato Colateral), exatamente o filme que a cabo Chelsea Manning revelou ao mundo, vazamento que lhe custa hoje pena de 35 anos de cadeia, que ela está cumprindo.]

Mas o que a comunidade de inteligência dos EUA só agora começa a avaliar é o dano colateral causado pelos subornos que o governo Bush pagou a insurgentes sunitas. Parte desse dinheiro parece ter sido usada como capital inicial para converter a “Al Qaeda no Iraque” em Estado Islâmico, enquanto os sunitas, que continuaram a ser segregados e perseguidos pelo governo de xiitas que os EUA impuseram no Iraque, expandiam seus ataques sectários na direção da Síria.

Além dos xiitas iraquianos,[1] o governo secular da Síria, com Assad e outros líderes chaves do ramo alawita do Islã xiita, também passou a ser atacado por extremistas sunitas locais e jihadistas estrangeiros, alguns dos quais se uniram ao Estado Islâmico, mas cuja maioria agregou-se à Frente Nusra da Al Qaeda e a outras fontes radicais. Embora o Estado Islâmico tenha surgido como “Al Qaeda no Iraque” (AQI), logo se converteu em força ainda mais sanguinária e, na Síria, emancipou-se da Al Qaeda central.

Isso foi o que Assad sempre disse (ou: Relatórios de inteligência)

A inteligência dos EUA acompanhou em tempo real muitos desses desenvolvimentos. Segundo um relatório da Agência de Inteligência da Defesa de agosto de 2012, “AQI apoiou a oposição síria desde o início, tanto ideologicamente como pela imprensa. (…) AQI declarou sua oposição ao governo de Assad, porque o considerava regime sectário que matava sunitas.”

Em outras palavras, o que Assad sempre disse, desde os primeiros ataques, sobre haver “terroristas” infiltrados na oposição, sempre teve fundamento na realidade.

Nas primeiras agitações, em 2011, houve casos de elementos armados que mataram policiais e soldados. Adiante, foram ataques terroristas à bomba contra altos funcionários do governo sírio, incluindo uma explosão, dia 18/7/2012 – que o governo sírio denunciou como atentado por suicida-bomba – que matou o ministro da Defesa da Síria, general Dawoud Rajiha, e Assef Shawkat, vice-ministro da Defesa e cunhado do presidente Assad.

Naquela época já era muito claro que Arábia Saudita, Qatar, Turquia e outros países governados por sunitas estavam mantendo, com dinheiro e outros recursos, grupos rebeldes jihadistas que lutavam para derrubar o governo Assad, que viam como protetor de cristãos, xiitas, alawitas e de outras minorias sempre ameaçadas de perseguição no caso de os extremistas sunitas prevalecerem.

Como se lia no Relatório da Inteligência da Defesa de 2012 sobre a Síria, “internamente, os eventos estão tomando rumo claramente sectário (…). Salafistas, a Fraternidade Muçulmana e a Al-Qaeda no Iraque são as maiores forças que comandam a insurgência na Síria. (…). O ocidente, países do Golfo e Turquia apoiam a oposição; enquanto Rússia, China e Irã apoiam o governo da Síria.”

Os analistas da Inteligência da Defesa já compreendiam claramente os riscos que a AQI representava para a Síria e para o Iraque. O relatório conclui com um claro alerta para a expansão da AQI, que já se estava convertendo em Estado Islâmico, ou o que naquele relatório é chamado “ISI”. O brutal movimento armado via suas fileiras inchar sempre mais, com a chegada de jihadistas globais que se reuniam em torno da bandeira negra da militância armada sunita, intolerante contra os ocidentais, tanto quanto contra os “hereges” xiitas e de outras ramos não sunitas do Islã.

Com aquele movimento crescendo, havia risco de que a violência voltasse a respingar sobre o Iraque. O relatório da Inteligência da Defesa escreveu: “Assim se cria a atmosfera ideal para que a AQI retorne aos seus velhos bolsões em Mosul e Ramadi [no Iraque] e assegurará ao grupo renovado ímpeto, ante a expectativa de unificarem a jihad sunita de Iraque e Síria, e com o resto dos sunitas no mundo árabe contra o que consideram o principal inimigo, os dissidentes [aparentemente, é referência ao xiismo e a outros ramos não sunitas do Islã]. O ISI pode também declarar um Estado Islâmico, de sua união com outras organizações terroristas no Iraque e Síria, que criará grave risco para a unificação do Iraque e proteção de seu território.”

Diante dessa crescente ameaça do terrorismo de sunitas – que efetivamente respingou de volta sobre o Iraque –, a ideia de que a CIA ou militares dos EUA pudessem efetivamente armar e treinar uma força rebelde “moderada” para lutar contra os islamistas já era delirante; pois foi o que o ‘grupo de pensamento’ dentre outros ‘importantes’ da Washington oficial sugeriu: criar precisamente um exército “moderado” para depor o presidente Assad. Isso feito, tudo ficaria automaticamente perfeito.

Dia 2/10/2014, o vice-presidente Joe Biden deixou entrever mais um pedaço do rabo do gato escondido no saco, quando contou aos que assistiam a uma palestra na Kennedy School, de Harvard: “nossos aliados na região eram nosso maior problema na Síria (…) sauditas, os emirados, etc., o que estavam fazendo? Estavam super decididos a derrubar Assad e, na essência, queriam lá uma guerra à distância [por procuração] de xiitas contra sunitas, e o que fizeram? Eles fizeram jorrar centenas de milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armamento militar sobre qualquer um que se dispusesse a lutar contra Assad. Problema é que o pessoal que estava sendo abastecido eram Al Nusra e Al Qaeda e elementos do jihadismo extremista vindos de outras partes do mundo” [à altura dos 53’20” desse clip].

É dizer, em outras palavras, que vários dos membros que compõem a coalizão anti-Estado Islâmico comandada hoje pelos EUA realmente financiaram e armaram, antes, os mesmos jihadistas que a coalizão supostamente combate hoje. Se se levam em consideração os bilhões de dólares perdidos que o governo Bush entregou a combatentes sunitas desde 2006, chega-se facilmente à conclusão de que a coalizão hoje liderada pelos EUA tem responsabilidade vasta e direta pela geração do problema que, hoje, ela está supostamente combatendo.

Biden disse coisa bem semelhante também em referência aos estados do Golfo Persa: “Agora, repentinamente… Não quero parecer leviano, mas… eles viram a luz! De repente, a Arábia Saudita parou de dar dinheiro a eles. (…) A Arábia Saudita está permitindo o treinamento, em seu território [de combatentes para lutar contra o Estado Islâmico] (…), os qataris cortaram a linha de suprimento para as organizações terroristas mais extremistas. E os turcos tentam agora fechar as fronteiras.”

Mas evidentemente permanecem muitas dúvidas sobre o comprometimento desses governos sunitas no combate contra o Estado Islâmico; e há ainda mais dúvidas sobre se o comprometimento deles inclui combater contra a Frente Nusra da Al-Qaeda e outras forças jihadistas sunitas. Alguns neoconservadores chegaram até a propor e defender que os EUA apoiem Al Qaeda – que seria ‘mal menor’, comparada ao Estado Islâmico e ao regime Assad.

Putin é culpado de tudo

Pois é quando o editorial do Times na 2a-feira joga todas as culpas sobre as costas de Putin, por grande parte do que se vê hoje na Síria, porque a Rússia teria tido o atrevimento de apoiar o internacionalmente reconhecido governo sírio, contra hordas de terroristas apoiados pelo ocidente. Para o Times, não caberia nenhuma culpa nem aos EUA ou a seus aliados, pelo horror que se vê hoje na Síria.

O Times também ladrou insultos pessoais contra o presidente Putin. Esses insultos são parte da outra narrativa do jornal, igualmente viciosa, mas sobre a crise da Ucrânia. Para os editorialistas empregados do Times, o que acontece na Ucrânia é caso simples de “agressão russa” ou de uma “invasão russa”. O jornal absolutamente não vê o papel clandestino ativo da vice-secretária de estado neoconservadora Victoria Nuland, que orquestrou a derrubada violenta do presidente Viktor Yanukovych eleito na Ucrânia em fevereiro de 2014.

No editorial da 2a-feira, o Times ‘noticiou’ que o presidente Barack Obama “considera Mr.Putin um bandido” –, apesar de ter sido Obama quem se vangloriava, mês passado: “Ordenei ação militar em sete países” –, mais um fato inconveniente que o Times deixa discretamente apagado do mundo. Quer dizer: quem é o “bandido”?

Pois apesar de todos os desaforos e desatinos, e de rosnar ofensas contra o presidente Putin… o Times acaba por ‘aconselhar’, no final do editorial, que Obama teste, sim, a boia salva-vidas que Putin jogou para a política dos EUA na Síria, política a qual – já cansada de espernear e bater mãos, tentando manter-se à tona – está já sumindo rapidamente em areias movediças. O editorial conclui:
“O secretário de estado John Kerry, falando em Londres na 6a-feira, deixou bem claro que os EUA passam a buscar ‘terreno comum’ na Síria, o que deve significar manter Mr. Assad temporariamente no poder, durante uma transição. Os russos terão (sic) de aceitar que Mr.Assad terá de sair ao final de um prazo determinado, digamos, seis meses. O objetivo é um governo de transição, que inclui elementos do governo Assad. O Irã deve ser parte de qualquer acordo.

“Os EUA devem ter em mente que as motivações de Mr. Putin são com certeza turvas, e que ele talvez não tenha tanto interesse em unir-se à luta contra o Estado Islâmico quanto tem em promover seu antigo aliado. Mas com isso em mente, não há razão para não testá-lo.”
A aparente disposição de Kerry, para trabalhar com os russos – posição que minhas fontes garantem que é também a de Obama – é pelo menos indício de que ainda resta alguma sanidade no Departamento de Estado – o mesmo que, inicialmente montou uma tentativa absurda e fútil para organizar um bloqueio aéreo para impedir a Rússia de entregar ajuda à Síria, por ar.

Se a tal ‘operação’ – brotada da divisão europeia chefiada por Nuland – fosse bem-sucedida, haveria risco de o governo sírio cair, abrindo as portas de Damasco para o Estado Islâmico e/ou Al Qaeda.

Os neoconservadores vivem tão obcecados com alcançar seu velho objetivo de fazer “mudança de regime” na Síria, que já nem veem o risco de entregar a Síria aos degoladores no Estado Islâmico e aos planejadores de ataques terroristas da Al Qaeda.

Contudo, depois das sempre presentes patadas e coices para todos os lados minimamente civilizados, parece que as cabeças mais frias no governo Obama talvez tenham prevalecido –, talvez, também, no New York Times.

[1] O original diz “Besides the Iraqi Sunnis, Syria’s secular government, with Assad and other key leaders from the Alawite branch of Shiite Islam (…)”. Parece ser engano, que aqui corrigimos, até melhor análise. Todos os comentários e correções são bem-vindos [NTs]

Fonte: Oriente Mídia

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